O poder do grupo

Este é o 3º e-mail sobre a C.A.B.I.N.E. Se você gostar, pode ler a sequência completa aqui.

A aviação é um meio muito solitário. Eu percebi isso na faculdade.

Quando surgia algum avião pra voar, ninguém falava nada. Só a panelinha mais próxima ficava sabendo, e olhe lá.

Então, ou você já estava na panelinha certa e ficava sabendo das vagas… Ou tinha que implorar pra fazer parte dela… Ou as chances de conseguir um avião eram praticamente zero.

E isso faz sentido. Se os amigos e conhecidos também são concorrentes, é natural pensar duas vezes antes de sair falando por aí sobre alguma vaga, pra pelo menos garantir o próprio emprego e o dos mais chegados.

Porém… Isso restringe muito o círculo de amizades e contatos à própria panelinha.

Pra você ter uma ideia, na faculdade, as panelinhas em geral eram de 2 ou 3 pessoas muito próximas. Se todos já estivessem voando, aí eles davam oportunidade pros amigos mais distantes. Senão, o grupo continuava bem fechado.

O que era uma pena. Você ficava restrito a um grupo minúsculo e não conseguia desenvolver novas amizades porque essas pessoas já pertenciam a outra panelinha, e não iam “trair” o grupo atual mantendo contato com alguém externo.

Vou mostrar como funciona na prática usando nomes fictícios.

João é amigo do Alberto e do Carlos. Os 3 são muito próximos, contam tudo que acontece um pro outro, dividem experiências,… Provavelmente eles voam no mesmo aeroclube e tiram as carteiras mais ou menos no mesmo período.

João também é monitor de uma matéria na faculdade, assim como o Felipe. Toda semana, eles trocam algumas ideias, e às vezes se reúnem na casa de outros amigos pra fazer um churrasco. Em geral, o Alberto e o Carlos não vão, porque eles não conhecem o Felipe direito.

Um dia, João fica sabendo que um co-piloto de Phenom foi chamado pela Gol, e que o dono do avião está procurando um novo co-piloto.

João quer indicar alguém pra vaga. Só que ele mesmo já está voando, e o Alberto também.

Quem está sem voar é o Carlos e o Felipe. Ambos têm as mesmas carteiras e qualificações. E ambos precisam muito da vaga.

Porém, João sabe que, se ele comentar com o Felipe sobre a vaga e, principalmente, se o Felipe ficar com o emprego, o Carlos vai ficar muito p***. O Carlos espera que o João fale só com ele, pra aumentar as chances de ele ficar com a vaga… Porque é exatamente isso que ele faria se a situação fosse ao contrário.

Ou seja, João precisa fazer de tudo pro Carlos ficar com a vaga, e só depois ele pode pensar em ajudar o Felipe (isso se ele, o Alberto e o Carlos continuarem voando).

Até aí tudo bem…

Mas, no meio do caminho, o Felipe fica sabendo sobre a vaga. Pior, ele fica sabendo que o João já sabia da vaga, e não comentou nada com ele.

Então, eu te pergunto: o que o Felipe achou da atitude do João? Ele vai considerar o João como um amigo próximo, ou mais como um conhecido?

Pois é.

Porém, há um jeito diferente.

João poderia ter sentado com o Carlos, falado sobre a vaga, explicado a situação, e dito que ele ia indicar o Felipe também, pois ambos são amigos dele e quem deve decidir qual dos dois vai ficar com a vaga é o dono do avião, não ele…

E o Carlos poderia ter sido compreensivo, se fosse o caso até dividido a posição de co-piloto com o Felipe, até que um deles encontrasse um novo emprego… Por que não?

Todos iam ganhar: o João ia manter os amigos; o Carlos e o Felipe iam voar; provavelmente, os dois iam formar uma nova amizade até o Felipe ser incluído no trio; e, nesse ponto, o Alberto também ganharia mais um amigo próximo.

O grupo seguiria maior e mais forte.

A mesma coisa que aconteceu agora no acordo coletivo da Gol. Todos os pilotos se sacrificaram um pouco e tiveram o emprego garantido, ao invés de uma panelinha ficar e o resto ser demitido.

Essa cooperação precisa começar desde o PP.

Precisa acabar essa história de um piloto voando 3 aviões diferentes enquanto outros estão parados.

Nós pertencemos à mesma classe. Precisamos superar os mesmos desafios, as mesmas dificuldades.

Trocando a competição por cooperação, a jornada fica mais fácil, e nós temos muito mais poder para transformar a cultura e a educação aeronaútica.

Só é possível fazer isso através de um grupo. Foi outro motivo para eu ter criado a C.A.B.I.N.E.: reunir os pilotos que compartilham essa visão para que nós possamos ajudar uns aos outros.

E não importa se a comunidade é virtual.

Eu fiz grandes amigos na IVAO e na TAM Virtual sem conhecê-los pessoalmente (essa história fica pra outro dia).

O que importa é a participação. Os valores. A vontade de mudar algo pra melhor. De ajudar alguém simplesmente pela satisfação em ajudar (eu mesmo já fiquei duas horas depois da aula da faculdade revisando meteoro com um amigo que ia fazer a banca de PC no dia seguinte, ou dando aula pro PP/PC sábado de manhã de graça, junto com outros amigos.)

Isso é o que nos une.

Por isso, eu estou te convidando a entrar para a nossa Comunidade.

Se agora estiver meio complicado, sem problema. Vou continuar compartilhando tudo que posso para te dar autonomia.

Mas pense a respeito. Às vezes a C.A.B.I.N.E. pode ser o empurrão que faltava para você ir melhorando 1% a cada dia (como eu falei ontem) e conhecendo pessoas novas.

Um grande abraço!

Bagatini

P.S.: No futuro, podemos criar um grupo de estudos que se reúne toda semana pelo Zoom, um fórum para tirar dúvidas e trocar ideias, competições pra ver quem resolve os desafios mais rápido (a minha predileta rs), ou até mesmo alguns eventos presenciais pós-pandemia…

Basta ter gente disposta e interessada. Por isso eu conto com você.

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