Compreensão, Fluência e Interação (Parte 2/7)

Este é o 2º e-mail do curso “Como Aplicar a Estratégia na Preparação para a Prova da ICAO e Processos Seletivos”. Se você gostar, pode ler a sequência completa aqui.

Ontem, eu falei que vocabulário, pronúncia e estrutura estão na base da pirâmide, e que eles afetam diretamente a nota em compreensão, fluência e interação.

Mas que pirâmide é essa?

É esta aqui:

Screenshot da página 2-10 do ICAO Doc 9835 (2ª edição).

Ela está no manual da ICAO sobre a prova, e mostra que há uma hierarquia entre os critérios.

Precisamos começar pela base (estrutura, vocabulário e pronúncia), e só depois partir para o topo (fluência, compreensão e interação).

Isso acontece no ICAO porque os critérios são interligados… Ao contrário do que acontece no PP/PC/PLA, com as matérias quase totalmente separadas.

Pode observar. Uma questão de motores, em geral, não tem nada a ver com outra de navegação.

Já um erro de fluência (ex.: gaguejar) pode acontecer porque você esqueceu uma palavra (vocabulário) ou porque não sabia como falar corretamente (pronúncia).

Resultado: um critério influenciou o outro.

Nesse caso, a influência foi negativa. Um erro gerou outro erro.

Mas ela pode ser positiva. Se você melhora a sua nota nos critérios da base, os outros melhoram junto.

Afinal, se você sabe o que as palavras significam (vocabulário), como falar cada uma (pronúncia) e qual é a ordem delas na frase (estrutura)…

… fica muito mais fácil compreender os áudios, deixar o diálogo fluir e ter uma boa interação com o examinador, não é verdade?

Por isso, lembre-se: não se constrói uma casa começando pelo telhado.

Primeiro a base, depois o topo.

Vamos ver agora os 3 critérios que ainda faltam.


Compreensão

A compreensão é o entendimento sobre o que foi dito pelo examinador e durante os áudios.

Os famosos listening skills. 👂

O critério de correção da prova não liga muito para a sua compreensão em situações normais (sem ruído, sem sotaque, sem nada atrapalhando).

Ou seja, se você entende tudo em uma situação normal, não fez nada mais do que a sua obrigação rs.

A sua compreensão vai ser avaliada quando surge algo inesperado.

Se o examinador diz algo ou toca um áudio e você não entende bulhufas, nota 3.

Se você entende uma parte, fica na dúvida sobre o resto e o examinador precisa te explicar, nota 4.

Se você entende quase tudo, nota 5.

E se você entende tudo, inclusive algumas coisas não verbais*, nota 6.

(*Não verbal é a comunicação além das palavras propriamente ditas. Por exemplo, neste áudio, dá para notar que o piloto ficou frustrado. Porém, ele não precisou dizer “I am frustrated” pra gente chegar a essa conclusão. Nós entendemos mesmo sem as palavras.)

E o que é esse “algo inesperado”?

Qualquer coisa que foge do padrão, para a qual não existe um roteiro ou resposta pronta.

Por exemplo, na parte 2 quando o ATC coteja algo errado… Na parte 3 ao lidar com as emergências… Ou na parte 4, quando o examinador usa um vocabulário mais refinado ao fazer uma pergunta.

Se você ainda não conhece direito as partes da prova, veja o link que eu te passei ontem no começo do e-mail, e este aqui com exemplos de áudios.

Além disso, a própria ICAO disponibiliza alguns chamados Rated Speech Samples.

Outras dicas práticas.

Treinar compreensão nada é mais do que treinar o ouvido. Ouvir outra pessoa falando inglês. Qualquer uma.

Pode ser em canais de notícias, filmes, séries, vídeos, áudios, pessoalmente…

No entanto, como as situações da prova – principalmente as inesperadas – acontecem em um ambiente aeronáutico, vou indicar materiais com a mesma temática. (Mas preste atenção tanto ao vocabulário aeronáutico quanto ao vocabulário comum!)

O canal VASAviation tem diversos áudios de emergências reais, todos com legenda. Assista pelo menos 12 rs.

O Air Safety Institute é um braço da AOPA. Eles disponibilizam diversos materiais sobre segurança de voo, incluindo análises sobre acidentes. Vale muito a pena.

O Boldmethod, MzeroA e Flight têm vídeos instrucionais sobre diversos tópicos da aviação. São vídeos mais longos, mas com um conteúdo correto, completo e de qualidade.

O Steveo, Aviation 101 e Missionary Bush Pilot foram criados por pilotos que documentam a operação do dia a dia. O Steveo é comandante de aviação executiva, o Aviation 101 é instrutor de voo e o Missionary Bush Pilot é, como o nome diz, um bush pilot.

E o site LiveATC tem a escuta ao vivo de diversas frequências de ATC ao redor do mundo.

Obs.: todos os links acima são apenas exemplos que podem ajudar, mas há muitos outros, além dos livros voltados para a prova que eu indiquei ontem.

Fique à vontade para escolher a opção que você mais goste e que seja mais eficiente de acordo com os princípios que abordamos aqui.


Fluência

A fluência é a capacidade de falar naturalmente.

Para entender o que significa isso, vamos analisar o que não é fluência primeiro.

Baixe este Rated Speech Sample e ouça o 1º minuto.

Agora…

Repare.

A fala dele é…

Muito…

Pausada.

Ele não fala…

Frases inteiras.

E…

Tudo fica… Hum…

Picotado.

O áudio (e o texto acima) são exemplos de uma fala não natural, ou seja, pouco fluente.

Essa fala é caracterizada por:

  • Pausas longas;
  • Fala lenta;
  • Frases cortadas;
  • Uso de palavras para preencher espaço, como “é…”, “hum…”, “ah…”.

Já uma fala natural, muito fluente, é caracterizada por (pela):

  • Ausência de pausas longas;
  • Ritmo normal, sem ser devagar e entediante;
  • Frases completas, sem cortes no meio do caminho;
  • Pouco ou nenhum uso de palavas para preencher espaço.

A chave da fluência, então, é evitar buracos na fala conectando uma frase na outra.

Felizmente, existe um tipo de palavras cuja função é exatamente essa. São os discourse markers ou connectors.

Palavras como “And“, “So“, “Anyway” e “Well” ajudam a ir de uma frase a outra, de um pensamento ao outro.

Quanto mais você usar os conectores e evitar pausas longas, fala lenta,… maior será a sua nota.

Sobre as dicas práticas.

Se fluência é a capacidade de falar naturalmente, então… Você precisa falar. Seja com alguém ou sozinho.

Claro, é melhor com um professor, para ter um feedback instantâneo.

Porém, se você preferir, pode gravar a sua fala e analisar depois, vendo se desenvolveu bem o discurso ou se pausou e hesitou muito.

Apenas tome um cuidado: falar uma ou duas palavras não é fluência. É pronúncia.

Você precisa desenvolver um tópico. Abordar um assunto. Dar a sua opinião sobre um tema.

Só com uma fala mais longa é possível desenvolver e avaliar a fluência.


Interação

A interação é a garantia de que houve entendimento.

Uma interação perfeita acontece quando você entendeu tudo que o outro disse… E ele também entendeu tudo que você disse, sem nenhum mal-entendido.

Para essa difícil missão, a ICAO nos dá 3 dicas. Ela pede que as interações durante a prova sejam:

  1. Imediatas;
  2. Apropriadas; e
  3. Informativas.

Vamos entender cada uma.

1. Imediata

Você está no meio do voo e o controlador te chama no rádio:

– PT-ZZZ, suba e mantenha 6.000 pés.

Quanto tempo depois você precisa cotejar?

Dali a 5 minutos… Ou imediatamente?

Pois é. Na prova, é a mesma coisa.

Depois de um áudio ou pergunta do examinador, não dá pra ficar comendo mosca e viajando na maionese. A resposta precisa ser imediata.

Porém… Imediata não significa atropelar o examinador e os áudios.

Você pode tirar um tempo pra pensar, desde que:

a) Você comunique isso:

(Após uma pergunta) Good question! Let me think about it.

(Após um áudio) – Just a second, let me just finish my notes.

b) Você faça o raciocínio em voz alta pra ele acompanhar:

(Na parte 3 comparando as emergências) I believe fire in the engine is the most serious emergency. But maybe, it can be the engine failure, because…

(Na parte 1 respondendo qual foi o seu voo favorito) – There were so many good flights, it’s hard to pick a favorite. Maybe it was that time when… or maybe that other flight to…

Dessa forma, você não quebra a comunicação e ainda ganha pontos.

Melhor do que tá não fica.

2. Apropriada

Agora, imagine que você está no meio da prova. e o examinador te pergunta:

– What do you like about your job?

E você responde com elegância:

– I am hungry.

A resposta pode até ter sido imediata… Mas ela foi apropriada?

Claro que não. Resposta apropriada é aquela que faz sentido no contexto:

– What do you like about your job?

– I like to see things from above, to feel in absolute control of the aircraft and free from mundane tasks and worries, to get to see beautiful sights…

Isso sim é apropriado.

3. Informativa

Mesma pergunta:

– What do you like about your job?

Resposta:

– Everything.

😒

Outro exemplo. Parte 2 da prova, toca o primeiro áudio:

– ANAC 123, turn right heading 140, descend and maintain 4.500 feet, cleared for the ILS runway 17R, report established on the localizer, traffic on short final Airbus A320.

E, na hora de interagir, você diz com confiança:

– Roger.

Putz. Aí não dá.

Resposta informativa é uma resposta completa, rica, cheia de informações.

Não precisa contar o que aconteceu dois dias antes do seu aniversário de 5 anos e meio. Mas, pelo menos, renda um pouco a resposta e repita todas as informações durante os áudios.


Uma observação importante: as interações precisam ser naturais.

Já ouvi muita gente dizendo que as respostas da parte 1 precisam ter um minuto cada uma, ou 100 palavras, ou que a descrição da imagem precisa durar não sei quanto tempo…

Isso tira completamente o foco da interação com o examinador para a contagem de palavras.

Aí, você corta um raciocínio no meio ou fica enrolando só pra fala caber nesse padrão rígido…

… enquanto a comunicação, a interação e a fluência vão por água abaixo.

Não faça isso. Esses valores são apenas uma referência.

O mais importante é ter uma comunicação natural, deixar a conversa fluir.

Então, mantenha o foco no examinador.

Se ele te perguntar mais, responda mais. Se você tiver mais conhecimento sobre um tópico, fale mais. Senão, responda apenas o que você sabe, sem ficar enrolando.

A chance de cometer um erro durante o embromation é altíssima (e no e-mail de amanhã você vai ver quanto custa consertar um erro).


Essas 3 dicas da ICAO servem para quando você entendeu o que foi dito pelo examinador ou nos áudios e vai responder.

Porém… E se você não entendeu?

Vejamos. O que deve ser feito quando a gente não entende uma instrução do ATC?

a) Arrancar os cabelos.

b) Xingar ele e a mãe dele.

c) Perguntar, tirar a dúvida, confirmar, esclarecer.

Por favor, escolha a opção C. Foi o que eu disse lá no vocabulário:

Nunca prossiga sem ter entendido tudo.

Na vida real, isso pode gerar um desastre… E na prova também, com uma interação nível 3 ou menos.

Por isso, quando você não entender algo, pergunte. Confirme. Esclareça. Até ter certeza de que você entendeu tudo e de que não há nenhuma chance de mal-entendido.

Aí sim, vai haver comunicação e interação.

Por último, dicas práticas.

A interação é a soma de todos os outros critérios. Não tem como estudá-la de forma isolada.

Porém, de acordo com a pirâmide, se você estudar compreensão e fluência, a interação vem junto. É uma questão de prática.

Por isso, foque nos outros critérios primeiro, e deixe para fazer simulados da prova e praticar a interação por último.


Concluímos a estrutura imutável por trás da prova da ICAO!

Espero que tenha sido útil e te ajude a enxergar a prova de uma maneira mais lógica e concreta.

Para finalizar, existe mais uma diferença crítica entre a prova da ICAO e as outras provas da ANAC.

No PP/PC/PLA, cada questão vale 1 ponto. Não tem meio-termo. Ou você acerta e ganha 1 ponto, ou erra e fica com 0.

E na prova da ICAO?

Quantos pontos a gente perde a cada erro? Depende do erro ou é sempre o mesmo valor?

E como o examinador decide a nota que ele vai dar? É um critério objetivo ou subjetivo?

Se você souber como o examinador corrige a prova, vai finalmente entender a diferença entre um ICAO 3, 4, 5 e 6…

E escolher qual nota você quer tirar.

É o que veremos amanhã, no último e-mail específico sobre a prova da ICAO.

Um grande abraço!

Bagatini

P.S.: Quando eu aplicava simulados, vi muitos alunos deixando escapar uma palavra em português de vez em quando.

Cuidado com isso.

Fale em português apenas nomes próprios e expressões que não têm tradução (ainda assim, tente expandir o termo):

My favorite flight was when I was 14 years old. My father and I were flying over Belo Horizonte, the city where I was born, and we could see the Mineirão, a famous soccer arena, from above.

P.P.S.: Também não precisa exagerar e traduzir Belo Horizonte para Beautiful Horizon nem Mineirão para Big Miner!

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