A verdadeira diferença entre o ICAO 3, 4, 5 e 6 (Parte 3/7)

Este é o 3º e-mail do curso “Como Aplicar a Estratégia na Preparação para a Prova da ICAO e Processos Seletivos”. Se você gostar, pode ler a sequência completa aqui.

Um mês depois da minha prova da ICAO, chegou o resultado por e-mail.

Comecei a suar frio. Quanto eu tinha tirado?

3? 4? 5?

Abri o e-mail, tremendo nas bases… e fui direto pro quadro com as notas.

Nível final: 6 – Expert.

Putz!!! Que maravilha!!! Nunca mais vou ter que fazer a prova!

Uma a menos. Ufa.

Porém… Depois que a euforia passou, uma pulga surgiu atrás da minha orelha.

Por que eu tinha tirado o 6?

Essa pergunta pode parecer esquisita, mas eu realmente fui pego de surpresa.

Durante a prova, eu tinha gaguejado um pouco, e o meu inglês estava meio enferrujado.

Na minha cabeça, um ICAO 6 precisava ser perfeito. E eu não tinha sido.

Enfim… Também não fiquei reclamando rs, e eventualmente deixei a história de lado.

Até que, dois anos depois, fui convidado a dar aulas para a prova da ICAO.

Imagina a situação. Eu continuava sem entender quase nada sobre a prova, e não fazia ideia do porquê tinha tirado o 6.

Não dava mais.

Se eu quisesse ser um professor decente, tinha que decifrar a prova e descobrir como tirar o ICAO 6 em qualquer situação, sem depender da sorte ou do alinhamento dos astros.

Então, comecei a ler página por página do Doc 9835, rezando pra encontrar algumas respostas.

Felizmente, elas estavam lá.

Eu finalmente entendi como a prova funcionava e porque tinha tirado o ICAO 6.

A chave foi descobrir como a nota era calculada: através da comparação entre o número de erros/acertos e o total de itens avaliados em cada critério.

Para ficar mais claro, vamos colocar alguns números hipotéticos.

Suponha que, ao longo da prova, você:

  • Usou 300 palavras diferentes;
  • Pronunciou cada uma delas, em média, 3 vezes (900 ao todo);
  • Montou 200 estruturas com essas palavras;
  • Ouviu 600 palavras do examinador e dos áudios;
  • Falou continuamente 60 vezes; e
  • Interagiu 50 vezes.

Cada item poderia equivaler a um critério:

  • Vocabulário: 300 itens
  • Pronúncia: 900 itens
  • Estrutura: 200 itens
  • Compreensão: 600 itens
  • Fluência: 60 itens
  • Interação: 50 itens

Esses números representam o total de itens avaliados em cada critério, conforme o tanto que você falou durante a prova.

Se você render a conversa e falar mais, são mais itens. Se ficar mais quieto, menos itens.

Pense neles como o “número de questões que o examinador vai corrigir como certo ou errado.

Agora, do total de itens em cada critério, em:

  • Vocabulário, você acertou 270 e errou 30;
  • Pronúncia, você acertou 720 e errou 180;
  • Estrutura, você acertou 160 e errou 40;
  • Compreensão, você acertou 540 e errou 60;
  • Fluência, você acertou 48 e errou 12;
  • Interação, você acertou 45 e errou 5.

Portanto, para calcular a sua nota, vamos ver quanto o número de acertos representa do total de itens:

  • Vocabulário: 270/300 = 90% de acertos;
  • Pronúncia: 720/900 = 80% de acertos;
  • Estrutura: 160/200 = 80% de acertos;
  • Compreensão: 540/600 = 90% de acertos;
  • Fluência: 48/60 = 80% de acertos;
  • Interação: 45/50 = 90% de acertos.

Por último, imagine que um ICAO 4 precisa acertar pelo menos 80% das vezes, e um ICAO 5, 90%.

Nesse cenário, qual seria a sua nota em cada critério?

  • Vocabulário: 5;
  • Pronúncia: 4;
  • Estrutura: 4;
  • Compreensão: 5;
  • Fluência: 4;
  • Interação: 5.

Resultado final: ICAO 4.

Sacou?

É assim que o examinador calcula a sua nota.

Claro, se você for olhar o Doc 9835, não tem nenhum desses números lá dentro.

Mas esqueça os números. Eles são hipotéticos.

O que importa são os princípios:

  1. O “número de questões” da prova não é fixo. Ele varia conforme o tanto que você fala;
  2. A nota em cada critério é dada com base na frequência de acertos, ou seja, quantas vezes você acertou dividido pelo total (acertos + erros).

Tá. Por que eu te mostrei tudo isso?

Porque os princípios influenciam diretamente a maneira como a gente deve estudar pra prova.

Veja só.

De acordo com o 1º princípio, o “número de questões” varia. E se ele varia, então o número de pontos que você perde quando comete um erro também varia.

Por exemplo: se você interagiu 10 vezes, acertando 8 e errando 2, a sua nota final seria 80%.

No entanto, se você interagiu 20 vezes, acertando 18 e errando as mesmas 2, a sua nota final seria 90%.

Em ambas, você errou o mesmo tanto: 2 vezes.

Mas na primeira situação, cada erro custou 10% da nota. Na segunda, apenas 5%.

Quais são as consequências disso?

1ª: Quanto menos você falar durante a prova, mais caro vai custar cada erro.

2ª: É mais eficiente diminuir o número de erros do que aumentar o número de acertos.

Para demonstrar a 2ª, vamos imaginar que um ICAO 6 precisa acertar os verbos pelo menos 95% das vezes.

Ou seja: se você falou 100 verbos durante a prova, precisa ter acertado pelo menos 95, e errado no máximo 5.

Aí eu te pergunto: se você tivesse cometido 1 erro a mais, precisaria de quantos acertos a mais para continuar com 95%?

Não vou entrar na matemática porque não é o foco, mas a resposta é: você precisaria de 19 acertos a mais.

E qual dos dois você prefere? Ter que acertar 19 vezes a mais ou só deixar de errar 1?

Por isso, é mais importante perceber, corrigir e evitar erros, do que compensar esses erros falando mais.

Apenas tome cuidado com uma coisa: não adianta nada evitar erros falando o mínimo possível durante a prova.

Você vai errar menos, mas como eu falei na 1ª, cada erro vai custar mais caro. Zero a zero.

O jeito certo de evitar erros é caçando eles durante os estudos. Ficando atento, focado.

Já vi muita gente achando que, durante a prova, o mais importante é sair falando igual a um caminhão desgovernado.

Não é.

Precisa haver um equilíbrio entre o tanto que você fala e a probabilidade de cometer um deslize.

Qual é a melhor maneira de fazer isso na prática?

Mantendo um dialógo natural. Falando mais quando tem mais assunto, e menos quando não tem nada a acrescentar.

Do mesmo jeito que as pessoas normais fazem ao longo da vida.


Para finalizar, duas reflexões rápidas.

Você já viu que a sua nota é baseada na porcentagem de acertos. Quanto maior a porcentagem, maior a nota.

Levando isso em conta, qual é, de fato, a diferença entre um ICAO 3, 4, 5 e 6?

Um ICAO 6 comete menos erros do que um ICAO 5, que comete menos erros do que um ICAO 4, que comete menos erros do que um ICAO 3.

Simples assim.

Não tem nada a ver com sotaque, se fez intercâmbio ou não, se consegue ver um filme sem legenda, se fala inglês 20 minutos sem parar…

Tem a ver com o refinamento do idioma. Com a capacidade de falar corretamente, seguindo as regras semânticas (vocabulário), fonéticas (pronúncia) e gramaticais (estrutura).

Ou seja:

1- A sua nota só depende de você.

Você é quem decide em qual nível de refinamento quer chegar durante os estudos.

E se você escolhe o nível de refinamento, então, no fundo, você escolhe a sua nota.

O local da prova, o examinador, a cor da cueca, a umidade relativa… Tanto faz.

A única coisa que importa é o esforço que você está disposto a fazer.

2- Um ICAO 6 também comete erros.

Você não precisa ser perfeito para tirar o ICAO 6. Só precisa errar pouco.

Foi exatamente o que aconteceu na minha prova. Eu devo ter cometido alguns deslizes, mas a frequência de acertos foi alta o suficiente.

Portanto, a minha nota fez sentido. Estava de acordo com o manual.

Você só não pode cometer um erro imperdoável, como “I likes to flying” (dói até de escrever).


Eu sei que o e-mail de hoje foi mais complexo.

Se ficou alguma dúvida, ou se você quiser fazer uma sugestão / reclamação / imposição / aglomeração, fique à vontade!

O seu feedback é o único jeito de eu saber como melhorar o curso e te ajudar de maneira mais efetiva. 🙂

Amanhã, vamos fazer uma reflexão válida tanto para a prova da ICAO quanto para os processos seletivos: a importância de entender a cabeça do examinador.

É uma habilidade que pode te ajudar em qualquer prova...

… inclusive a evitar algumas tragédias.

Forte abraço!

Bagatini

P.S.: Não tem nada aqui.

Talvez amanhã tenha.

Who knows?

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